O que é ser mulher e cirurgiã?

April 30th, 2014 por

Meus alunos, do nono período, que irão apresentar  Seminário sobre “Mulher cirurgiã” perguntaram-me, hoje, o que foi escolher esta especialidade. Teria que em breves palavras sumariar as razões da escolha, as dificuldades vividas e, claro, as alegrias também.

Então minha resposta foi: escolha – desafio; dificuldades – ser concomitantemente dona de casa e mãe , além da costumeira pergunta de vários pacientes “você tão jovem e mulher é que vai me operar?”; alegrias – ter ajudado muita gente e, bem!

Faria tudo de novo, com certeza!

Agora, sendo menos cirurgiã e mais filósofa, apontaria que a escolha foi movida pela minha característica que é não esperar que façam, mas ser eu mesma a fazer. Logo, o interesse pela Cirurgia surgiu precocemente durante o curso, quando tive a capacidade perceptiva de entender a diferença entre a clínica e a cirurgia. Ademais, a ideia de a cada dia ter que enfrentar algo novo e desafiador moveram-me mais ainda para a Cirurgia Geral. Inicialmente, havia pensado em Neurocirurgia que me fascinou pelo enigmático que o cérebro traduzia ou, a Cirurgia Cardíaca que representava o batimento da vida.  Nessa viagem pelas especialidades cirúrgicas, acabei por conhecer alguém que me ensinou muito e que levou meu coração junto: pronto a decisão estava tomada – seria cirurgiã geral. Como o amor é lindo!!!

E as dificuldades? Sem dúvida ser mulher, dona de casa e mãe, simultaneamente sendo cirurgiã é algo bastante difícil e, chegaria até a dizer, sobremaneira complexo, mesmo que o marido seja o chefe da equipe. Afinal, todas essas tarefas demandam tempo árduo para ser compartilhado, muito sacrifício, extrema dedicação e, alguma abnegação. Sim, às vezes, até o próprio abandono do Eu. A essas particularidades, soma-se a incredulidade de pacientes que na “hora H” ao ouvirem a indicação cirúrgica, indagam inseguros “mas você, tão jovem e mulher é que irá me operar?”. Também, escutei de alguns colegas questionamentos do tipo “já discutiu com “fulano/ciclano” (sempre do sexo masculino, pois não havia então outras mulheres no serviço) sobre a necessidade cirúrgica, de fato?”. E foi, certamente, por estas e por outras que em determinado momento, decidi que não precisava provar mais nada para ninguém, decidindo então assumir, também, outra especialidade. Algo novo, em que só eu seria dona do meu nariz e, não mais teria a necessidade de ser questionada sobre as condutas a serem tomadas. Afinal, ninguém sabia nada sobre a tal Nutrição! Ganhei parcialmente a alforria, mas concomitantemente iniciei a maior batalha da profissão: provar o valor da Terapia Nutricional. Depois de tantos anos, também garanto não me ter arrependido, apesar de muitas vezes me ter perguntado “porquê”. Certamente, teria sido mais fácil se tivesse trilhado por outro caminho, mas não necessariamente tão recompensador profissionalmente, mesmo quando exausta tinha/tenho que ser mulher e mãe! Contribuíram para o sucesso, sem dúvida, meus pais que assumiram papel quase que integral na ajuda aos netos. Mesmo assim, meus filhos cresceram habituados a dormir, quando necessário, dentro do bloco cirúrgico ou ainda, a ir passar visita com a mãe, quando não tinha com quem deixá-los. Talvez, por isso, nenhum tenha querido seguir a profissão dos pais!

Por fim, as alegrias alcançadas por ter feito a opção “cirúrgica” são absolutamente inimagináveis e, culminaram, quando na precoce carreira universitária, alcancei o posto de “Professora Titular”.  Sem palavras!

Hoje, posso afirmar que não preciso e nem quero provar mais nada: sou e pronto! Foi difícil, mas nem um pouco impossível, afinal consegui preservar, acima de tudo, o EU!

 

2 comentários para O que é ser mulher e cirurgiã?

  1. Raíza comentou:

    Que lindo professora!
    Preservar o que de melhor somos não é moleza!
    Que você continue fazendo história e influenciando tão bem a vida de muitos homens e mulheres!
    Um abraço, com carinho!

  2. Elizabeth Santos comentou:

    Isabel. há quanto tempo….
    Já quase no final de minha carreira so serviço público(assim que eu defender o doutorado em setembro vou me paosentar) como vc descobri uma outra vida e estou me desvestindo da segunda pele: a cirurgiã. Vc enveredou pela gastronomia, eu pela vida literararia. Escrevo romances, já com 2 publicados.
    Diferente de vc não quis seguir a carreira universitária, mas também fiz quase tudo do que queria fazer!
    Um grande abraço! Espero que algum dia vc leia esse post.
    Elizabeth santos

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