Pesquisa no Brasil, um retrato do masoquismo e muito mais……

October 14th, 2013 por

Quer fazer pesquisa no Brasil, então prepare-se para ter vários contratempos e dores de cabeça! Comecemos por algumas situações hipotéticas, mas absolutamente reais:

1 – você é um jovem professor, recém admitido na Universidade (se for privada, é pior ainda), tenta conseguir verba de fomento para  a continuação de suas pesquisas que lhe garantiram tanto o título de mestre como o de doutor (meras exigências para ser admitido em concurso). Para melhorar mais a situação e porque é muito esforçado, já publicou os trabalhos em revistas de renome internacional (esqueça, se o fez em periódicos nacionais), submete aquele projeto “redondinho” a um edital do CNPq ou da Fundação Estadual de Pesquisa, se for em Minas será a FAPEMIG. Mil burocracias….Mas, como seu empenho foi grande, conseguiu em tempo hábil, ainda que seu trabalho como professor e profissional continuassem, atender a todas as exigências do edital e, submetê-lo dentro do prazo estipulado.

Começa então a segunda etapa – a espera pelo resultado. Eis que sai a publicação e seu nome não está lá….frustração completa!  Contudo, pela sua determinação, vai adiante e envia um recurso. Após meses de longa espera e, caso a resposta chegue, será de novo um “não”. Sabe porque? Bem, vamos às hipóteses: a) seu currículo ainda que bom para iniciante, não se compara com o dos professores mais experientes; b) seu projeto não foi lido por especialista e sim, por um técnico, que como não viu que você era  jovem pesquisador, de imediato, retira você do páreo da concorrência (parecido com opção a); c) seu projeto foi lido por consultor ad hoc que tem linha similar à sua e,  que por mera coincidência, achou que o projeto não era relevante (ops, afinal mais um para concorrer); d) seu projeto é muito bom, mas há outros que têm mais méritos! Moral da história, a verba não virá e, ou você desiste ou então gasta do seu bolso para levar adiante o sonho. Ah….pode ser que sua instituição opte por te ajudar, mas calma…..o dinheiro sequer dará para o início do estudo. Dura realidade??? Mas verdadeira!

2 – você já não é mais jovem e viveu tudo da opção anterior, sendo que em algum momento foi agraciado com um incentivo à pesquisa. Beleza, está no páreo daqui para a frente! Mas calma, muita calma, isso não quer dizer que vai conseguir fazer o que planejou com a verba que conseguiu. Há um monte de burocracias a serem respeitadas, que certamente foram idealizadas para que a fraude não ocorra. Deus meu, quem conseguirá enriquecer com a verba de pesquisa, me pergunto para justificar a tal burocra? Mas enfim, é preciso, é preciso! Contudo,  sabem o que é pior?  Vamos aos exemplos, de novo:

a) precisa de certos materiais, porém se comprar no Brasil saem cerca de três a quatro vezes mais. Então como, já é muito “experiente” tem autorização do CNPq para fazer “Importa fácil”, cujas taxas são bem menores. Ops, aí descobre que não pode……Porque? Só se não comprometer mais de 20% da verba que lhe foi concedida…..dá para crer? Pois é….verdade!

b) ganhou o financiamento  para fazer “caridade” de pesquisa em outro país, ajudando aqueles que estão piores que nós (em geral, os países africanos). Mas esqueça de novo, não pode comprar ABSOLUTAMENTE nada de materiais para esse estudo  (isto se for da CAPES, e quase sempre essa caridade com dinheiro Brasileiro para o terceiro mundo, é financiado pela CAPES). Então você se pergunta, como vou fazer a tal pesquisa? Envia a pergunta para o técnico, que te responde com o link para o edital. Moral da história – você com seu conhecimento apenas….nada mais fará a pesquisa! Verdadeiro processo de transformação de cabeça pensante em material atuante!

3 – ufa, finalmente, você conseguiu fazer a pesquisa, analisou os dados, escreveu o trabalho e agora só falta publicar. Apenas só….não! Começa o longo caminho, mas esse similar para qualquer trabalho, desde que com bom inglês. E por falar nisso, você se lembrou de pedir dentro da verba inicial aquela direcionada para a edição do texto por especialistas em Inglês? Se não, então, prepare-se, isso adicionará um custo de cerca de R$500 a R$ 600, que obviamente, virá de seu bolso. Ah, quem sabe sua Universidade paga??? Sim, desde que seja o autor para correspondência, que cumpra as regras e, que de antemão (mesmo sem saber se será beneficiado), já garanta nos agradecimentos a quem providenciará a  possível verba a ser pleiteada para isso.

Caraca……você quer mesmo fazer pesquisa neste país???? Isto para não dizer que além de tudo, você pensou, escreveu, submeteu para todas as instâncias de aprovação o projeto. Depois, treinou a equipe, coletou dados, montou o banco de dados, fez as análises, inclusive as estatísticas, pensou, redigiu e claro, deixou para trás muitos dos seus momentos de lazer. Para que tudo isso?

Até para aqueles que almejaram chegar ao topo da carreira universitária (Professor Titular) nem isso lhes garantirá o acesso por meritocracia, afinal a nova carreira de professor está cruel….E pior, para ganhar muito menos que a namorada do Zé Dirceu, no cargo de ASPONE no Senado Nacional. Não sabe que cargo é esse???? Então vá….”assessora de po……nenhuma”……deixa para lá, você é que é mesmo o ignorante!

Aguenta Brasil! Ou melhor se lixem todos os que querem trabalhar direito, afinal vivemos hoje a réplica da Revolução dos Bichos (George Orwell)…..todos os animais  são iguais, mas os porcos são mais iguais…..

 

1 comentário para Pesquisa no Brasil, um retrato do masoquismo e muito mais……

  1. Emerson Silami Garcia comentou:

    Caríssima professora Isabel Correia,
    Parabéns pelo belo texto. Felizmente, você não entrou em detalhes, pois pareceria ainda pior.
    Ter um bom problema de pesquisa, que seja relevante para sua área, redigir o projeto com uma justificativa plausível, preencher os formulários para aprovação no Departamento, depois na Congregação, do Comitê de Ética (que costuma merecer um capítulo à parte) e depois preencher os formulários da agência financiadora.
    Dentro do ítem projeto, tem os orçamentos de material permanente, de consumo e de serviços. Como alguns projetos usam dezenas de diferentes coisas produzidas por deferentes fabricantes, obter os orçamentos pode ser uma via crucis.
    Supondo que o projeto seja aprovado, o pesquisador deve implementar a verba. Se for pela FAPEMIG,, tem a burocracia da FUNDEP. Termo de outorga e outras coisas. Se for CNPq., Banco do Brasil. abertura de conta vinculada após autorização do CNPq., quano você recebe um talão de cheques sem direito a cartão, significando que você deverá telefonar ou ir ao banco sempre que desejar saber se o dinheiro já foi depositado, qual é o saldo ou se tem saldo. Pela FAPEMIG existe um alívio, pois ela faz tudo para você Uma beleza. É só assinar no final. Se houver alguma coisa importada, é diferente da compra no Brasil. Para o importado, você tem que obter autorização para cada ítem. Como quase tudo que usamos é importado, temos que recorrer aos departamentoss de importação. Neste ítem, a UFMG possui um serviço que sempre me atendeu com a mesma eficiência da FAPEMIG e devo cumprimentar o meu amigo Mário. Ele fica estressado, mas resolve todos os problemas burocráticos, mesmos os mais complicados. No caso de produtos perecíveis que exigem refrigeração, não é raro ele ser recebido por alguém que não sabe o que é perecível e que geralmente o que está em caixas de isopor com a informação Mantenha refrigerado deve ser imediatamente colocado em geladeira, e não é raro ver pesquisadores desesperados ao constatar que seu produto perecível ficou 2 semanas no almoxarifado, perecendo. Pode ocorrer também que o equipamento importado é muito grande e exige armazenamento no porto até ser liberado pela polícia federal e pela receita federal. Aí complica mesmo, porque o depósito é caro e cobrado diariamente. O pesquisador tem que recorrer à direção da sua unidade ou à pró-reitoria de pesquisa ou ao reitor para conseguir recursos para o depósito. Recentemente, após termos pago as despesas de armazenamento no porto, fomos indagados porque não havíamos apresentado 3 orçamentos para armazenamento. Informamos que primeiro só existem 2 armazéns credenciados no porto do Rio de Janeiro e, segundo que a receita federal não nos pergunta para onde queremos enviar a mercadoria para aguardar a liberação. A receita simplesmente envia para um destes 2 armazéns credenciados. Eu passei um aperto danado até descobrir isto para informar ao TCU ou AGU, não me lembro. No final deu tudo certo, eu espero. Após este pequeno intervalo, voltarei à nossa aventura. Saiu o dinheiro, foram adquiridos os equipamentos e material de consumo, temos que iniciar a pesquisa. Como trabalho com humanos, tenho que arranjar voluntários. Agora é que começa a luta verdadeira. Dependendo dos procedimentos você começa as explanações para 100 candidatos e, em 15 minutos, mais da metade já desistiu. No final, com muita luta, você consegue o número mínimo exigido de voluntários. Depois descobre que alguns deles não se enquadram e começa de novo o recrutamento. Iniciada a pesquisa, vocêe começa a passar as noites eem claro, pensando no que pode dar errado. Após vários meses (não pode exagerar porque o prazo para o relatório e a prestação de contas está logo ali), se você tiver sorte, termina a fase experimental do projeto. Agora é analisar os dados e redigir o artigo ou artigos. Depois vem a submissão aos periódicos. Quando recebemos um aceito com pequenas correções, achamos que é pegadinha. Geralmente vem uma rejeição ou aceite mediante profundas correções recomeça o drama. após idas e vindas o trabalho é aceito ou rejeitado definitivamente. Se for aceito, fazemos uma reunião festiva com os autores e colaboradores. Se rejeitado iniciamos a busca dos culpados e posterior punição dos inocentes. Em tempo, a PRPq.UFMG agora nos ajuda substancialmente no serviço de edição dos artigos B1, A2 e A1. Isto facilitou muito nossa vida. Parabéns a que idealizou este financiamento. Depois vem a fase final, que é o relatório e a prestação de contas. mais alguns meses e recebemos a mensagem da agência financiadora comunicando a aprovação do relatório e da prestação de contas. Aí pensamos: ufa, nunca mais pe;o financiamento para pesquisa. Dá muito trabalho. Infelizmente, daí a pouco receebbemos notícia de aberrtura de novo edital na FAPEMI ou no CNPq. e começamos tudo de novo, muitas vezes mais de uma aventura ao mesmo tempo. Mas, no final, compensa, senão não o faríamos. Gostamos de viver estressados e perigosamente.

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