O câncer e a nutrição! Minha ode ao bom senso!

February 15th, 2017 por

O câncer é, infelizmente,  uma das doenças que mais mata no mundo atual e a cada ano há aumento de novos casos independentemente do órgão afetado. A associação com os hábitos de vida contemporânea é inegável, dos quais a alimentação tem destaque não só como causa (depois que se tem a doença – esqueça o que deveria ter sido feito, pois é passado), mas também como parte integral do tratamento anti-neoplásico. E aí sim, pensemos que, independentemente de qual tratamento o indivíduo será submetido (operação, quimio ou radioterapia), a boa nutrição assume destaque importantíssimo.  Contudo e infelizmente, a maioria dos profissionais de saúde não dedica a atenção adequada para este aspecto, ou se o faz,  as recomendações, muitas vezes, não atendem os consensos de especialistas.  Ao mesmo tempo, há um monte de  paradigmas não fundamentados sequer pela  ética ou ciência. Por outro lado, os pacientes também buscam ou recebem, sem critério algum, informações completamente equivocadas que colocam em risco a evolução da doença e o sucesso do tratamento proposto. Sem contar, nos riscos das interações droga-nutrientes associados ao uso dos “inofensivos” remédios naturais ou da moda a que se submetem.

Assim, minha ode ao bom senso é dirigida aos meus colegas oncologistas, cirurgiões ou quaisquer especialistas que tenham estreito contato com o paciente, para que logo no início do tratamento sugira acompanhamento nutricional imediato por parte de médicos especialistas em nutrição e nutricionistas capacitados para tal atendimento. Todavia, também tenho que alertar o paciente e seus familiares que caso isso não ocorra, busquem, em comum acordo com o médico assistente, esta inter-consulta nutricional e deixem para segundo plano as indicações de todos os “pseudo-conhecedores”. Porque?

O câncer interfere no estado nutricional do paciente por distintas vias das quais ressaltam-se: falta de apetite (anorexia), enjoos, vômitos, aumento da resistência periférica à insulina, alterações metabólicas e imunológicas, dor, obstrução do trato gastrointestinal e de vias aéreodigestivas superiores etc etc. Assim, o risco de desnutrição em doentes com câncer é altíssimo e a prevalência desta complexa síndrome (desnutrição) pode atingir até 70% dos casos. Por sua vez, a desnutrição impacta negativamente em todas as formas de tratamento (alguns dos trabalhos de nossa linha de pesquisa. Mas há muitos mais). A saber:

Tratamento cirúrgico – risco de má cicatrização e complicações infecciosas;

Quimioterapia e radioterapia – complicações infecciosas e intolerância ao tratamento com necessidade de interrupção do mesmo.

Desta forma, poderia afirmar com certeza que desnutrição é “um péssimo negócio para quem está com câncer“. Por outro lado, se estratégias nutricionais fossem adotadas logo de início, alguns destes efeitos adversos da doença poderiam ser minimizados ou até evitados.

Existem várias opções de tratamento nutricional, cada uma melhor indicada de acordo com o doente, a enfermidade, as condições psicológicas e até mesmo as financeiras. É impossível ditar um tratamento único e genérico. Cada doente é ele mesmo e até nisso, pode variar nas distintas fases do tratamento.

Os modismos indicando  o uso de alimentos proibidos ou os milagrosos do tipo  “alimentos contra o câncer” (me desculpem os que fazem negócio com isso) não têm indicação atual sustentada cientificamente. Por outro lado, além dos riscos de efeitos adversos graves, consomem financeiramente os pacientes/famílias, que quando finalmente buscam a ajuda de um especialista já não conseguem mais gastar com o que de fato poderia trazer qualquer benefício.

É frustrante para um profissional não mais conseguir fazer aquilo que poderia ter sido realizado e, impactado positivamente na evolução da doença. Sobra, então,  o conforto de dizer ao doente: COMA O QUE TEM VONTADE E TOLERA!

Afinal qualidade de vida passa por “chutar o balde” de um monte de coisas, principalmente, insustentadas por evidências ou porque nesse momento, nada mais vai mudar o curso da doença. Podemos ajudar? Sim, com conforto e medidas paliativas. Mas a frustração de que se poderia ter evitado este caminho tortuoso fica na alma e me compele à “Ode ao bom senso”!

 

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