Heroína por alguns minutos, mas sem justa causa, a meu ver! Contudo, obrigada por me lembrarem que sou médica!

November 17th, 2014 por

Obrigada por lembrarem-me  que sou médica!

“Aplausos, aplausos, aplausos! Ela foi a nossa heroína!”

Ecoam as palmas, os parabéns e os agradecimentos!

Agradeço!

A cena toda é muito engraçada, pois afinal o cenário é a porta de um avião da American Airlines, e quem bate as palmas são as comissárias de bordo que estimulam o comandante e o co-piloto a fazê-lo também, enquanto eu passo por eles e, saio.

O reconhecimento é sincero por um ato simples, mas que resolveu o desespero de outrem. Então, talvez, não tão simples assim, deveria eu concluir. Até porque antes de mim, alguém já havia prestado o atendimento e, sem que eu saiba o ocorrido, não teria solucionado o problema.

Interessante que nessas muitas viagens pelo mundo, já fiz diversos atendimentos a bordo, sempre por causas distintas, mas desta vez, a situação foi inusitada. Mal acabáramos de levantar voo de Seattle, quando pelo alto-falante a voz de uma comissária anuncia a necessidade de um médico ou enfermeira. Aperto a chamada, assim como, esboça fazê-lo minha vizinha de assento, que era enfermeira. Mantenho-me sentada, pois o avião ainda estava em movimento de subida e, tento olhar ao redor para ver se observo do que se trata, sem sucesso.

Alguns minutos depois, uma das comissárias aproxima-se e explica: “não é nenhuma emergência, apenas uma passageira tem um corpo estranho no ouvido – o fone soltou-se do restante e está preso lá dentro. ” Contudo, informa-me que outro médico já teria feito o atendimento e, agradece-me pela gentileza.

Assim, volto ao meu entretimento de ver um filme. Mas, para meu espanto, passada uma hora e tal, a comissária volta a procurar-me, pedindo-me que fosse ver a passageira.

“Sabe, afinal o fone está a incomodar a senhora, que sente-se muito ansiosa e, o médico, que anteriormente a assistiu, dorme.”

E assim, lá vou eu para mais um atendimento “on board”.

– Obrigada, obrigada, por ter vindo atender-me – diz a jovem senhora com cara e voz de um misto de ansiedade e riso.

– Que ocorreu?

– Estava a ouvir música e, quando retirei o fone do ouvido, parte desse ficou lá dentro. Tentei retirá-lo, mas não consegui. O ou outro médico também não viu onde está.

Indago:

– Está muito incomodada?

E explico, que de acordo com o que vir, às vezes, é preferível que eu não mexa, para não empurrá-lo, podendo assim, causar mais mal estar. Continuo…

– Então, de acordo com o que encontrar, é melhor,  depois, quando chegarmos a Dallas, procurar um serviço de urgência.

– Como assim? An ER (emergency room – hospital de urgência)? Oh, nãooooo…… Mas ok, confio na sua explicação!

Peço uma lanterna e, pergunto se alguém tem uma pinça. Ambas surgem prontamente. Oriento a passageira para que se assente e, com o auxílio da comissária que ilumina a orelha, traciono ligeiramente o pavilhão auricular. Vejo que o “corpo estranho” não está tão profundo e, nem poderia, afinal era apenas o silicone do fone de ouvido. Uso a pinça e em dois segundos retiro o digníssimo, para alívio de todas (passageira e comissárias). Oferecem-me um vinho para agradecer e celebrar meu ato.

Agradeço, mas recuso e volto ao meu filme, para ser interrompida algum tempo depois, de novo. Agora, pedem-me meu cartão de visitas para que possa ser reconhecido a posteriori meu ato médico.

Retorno ao meu filme até o momento de chegarmos ao destino final daquele voo: Dalas.

Só me dou então conta que fui “heroína”, quando ao sair do avião,  a cena que primeiramente relatei ocorre. Penso calada e sozinha “que banalidade, mas como a vida é feita desses momentos”. Reconheço que nós médicos podemos representar a diferença, sem dúvida! De imediato, sensibilizo-me em  como é bom o reconhecimento, principalmente, quando dou-me conta que estou a caminho de casa, onde, hoje, esta profissão caiu em descrédito, sendo bode expiatório de todas as mazelas da saúde brasileira.

Eta profissão bonita! Orgulho de ser Médica! Obrigada, tripulação da American Airlines por ter-me feito recordar e viver isso!

PS

Em tempo, quando escrevi isto, dentro do avião, mal sabia  que iria passar pelo constrangimento de ser barrada na alfândega do aeroporto em Belo Horizonte, não pelo meu computador, celular ou Ipad (diga-se todos legais), mas sim, porque trazia comigo um estetoscópio que segundo os fiscais, não é permitido trazer por normas da ANVISA. Porque será? Não vou gastar tempo a elucubrar sobre o assunto….

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