Empoderar o paciente, algo a vislumbrar com certeza, mas com limitações!

November 2nd, 2017 por

Empoderar o paciente como copartícipe do tratamento é algo que talvez tenha surgido da filosofia de Paulo Freire, ainda que este não fosse médico. Contudo, as ideias de Freire extrapolaram as fronteiras da educação no sentido de escola, e alçaram voo para a educação em outras dimensões: a da saúde!

A Medicina em que o paciente e a família  respeitam religiosamente a conduta única e exclusiva do profissional médico deve ser começar a ser vista com cautela. Aliás, como em todas as outras dimensões quando as decisões são tomadas com base em apenas uma opinião há algo que deve ser questionado. Não quero aqui dizer que o Médico deverá ser colocado para escanteio e todas as ações tenham que ser feitas em conjunto, até porque há algumas que são de sua competência exclusiva. No entanto, compartilhar com o doente e a família a responsabilidade do cuidado é salutar e estimulador, fazendo com que todos possam assumir o papel relevante que é o de preservar a vida, com qualidade e respeito.

Porém, para que possa-se empoderar o paciente e a família, há a necessidade que o médico não fale “mediquês” e, consiga transmitir a quem escuta-o o real cenário e os possíveis caminhos a serem escolhidos. Nesse contexto, hoje, vivi situação que deixou-me deveras angustiada:

Chego ao quarto de uma doente e a encontro em franca insuficiência respiratória (falta de ar). Como não a via há 15 dias, em função de ter ficado fora da cidade, opto por ligar para o médico responsável para discutir as condutas, já que se trata de enferma idosa com prognóstico reservado, mas até então com investimento total. Oiço dele  “sim, é para levar para o CTI”.

Nesse momento, chegam o colega de plantão e outros dois de equipe que também acompanhavam a doente, ao mesmo tempo que surge uma das filhas. Começa o diálogo em “mediquês” e eu oiço. Entro na conversa para tentar traduzir e, usando linguagem simples, explico o que o colega responsável havia-me transmitido ao telefone. A filha pergunta-me “que faria se fosse sua mãe?”

Respiro fundo….e digo, acho que levaria para o CTI (baseada unicamente na vontade do médico responsável, uma vez que também acredito que talvez não haja espaço para mais invasões). Imediatamente, uma das colegas, entra na conversa e diz “não, ela tem probabilidade alta de morte e já houve a decisão de vocês de não invadi-la, logo sedá-la é melhor”.

Fico perdida e a filha também. Esta olha para mim e diz “tá a ver, opiniões diferentes”.  Tento contornar e dizer “quem sabe, você discute com os demais irmãos e, enquanto isso, tiramos o sofrimento dela com um sedativo” (mesmo sabendo que isto representará certamente a despedida).

Continuo minha labuta, enquanto meus colegas prescrevem o cuidado de conforto. Contudo,  minha alma continua agitada, inquieta e, na minha cabeça  a frase “tá a ver, opiniões diferentes” e uma face de angústia não me deixam em paz.

Parto, mas não sem antes passar no quarto e chamar a filha, que me dá uma lição de espiritualidade. Obrigada, é tudo o que quero dizer, ainda que meu desespero me corroa, pois recordo-me do diálogo complexo e me pergunto: empoderar o paciente, quando os médicos já têm a decisão tomada, como???

Parto para outro hospital e questiono-me por completo, até no meu desejo de continuar a labuta. Mas sempre há “Alguém” que coloca no meu caminho a justificativa do porque: dois olhos verdes de um tetraplégico em recuperação lenta me fazem ter vontade de continuar, “porque a esperança não morre nunca doutora!”

Simples assim!

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