Não como nutrientes e sim alimentos…..

September 28th, 2014 por

Não como nutrientes e sim alimentos! E, acima de tudo, não posso basear-me num único estudo para parar de usar este ou aquele nutriente ou  qualquer substituto, ou ainda parar de  indicar isto ou aquilo, ou até mesmo prescrever!

Foi assim que respondi à pergunta de um colega médico ao ser questionada sobre a publicação da revista Nature, desta semana, na qual  o uso de adoçantes artificiais foi associado à intolerância à glicose, em animais. Esta foi decorrente de alterações da microbiota intestinal (entenda-se, as milhões de bactérias, que salvo algumas exceções, vivem em perfeita harmonia no trato gastrointestinal).

Pesquisas em animais são fundamentais para depois prosseguirmos com estudos em humanos. Afinal, diria que há “discreta” diferença entre ambos. Estou tão segura disto que  apesar de ter pesquisado vários nutrientes em animais e, ainda que admita acreditar bastante nos efeitos benéficos dos mesmos (glutamina, arginina, citrulina) (1-6), tenho extrema cautela em advogá-los em pacientes cirúrgicos. Até porque, contrário ao que muito se tem publicado, trabalhos clínicos recentes questionam, por exemplo, os benefícios da glutamina.

Na verdade a ciência é um ir e vir de verdades transitórias!

Neste sentido, a arte de comer bem,  tema do meu “bate-papo” na Quinta especial da Unimed, é muito mais de que ingerir este ou aquele nutriente, mas sim um combinar de muitos. O Homem, sempre foi omnívero, ainda que os vegetarianos assim questionem. Por outro lado, as preferencias e convicções de cada um são incontestes. Antropologicamente, o trigo tem sido o alimento que sustenta o mundo, mas não só, uma vez que a ingestão isolada é insuficiente para manter o estado nutricional adequado, pois falta uma série de nutrientes. Por outro lado, coitado do trigo, está na moda falar mal dele, uma vez que  tem glúten. E daí perguntei eu há algum tempo num outro post? Contudo,  isso preocupa-me deveras! A retirada indiscriminada do glúten,  em muito dificulta o diagnóstico daqueles que de fato são intolerantes  ou que têm doença celíaca já confirmada.

Por outro lado, é óbvio que eliminar da dieta essa fonte de carbohidratos presente em tantos alimentos do dia a dia, como pães e massas, vai induzir à perda de peso tão almejada pelos quase 50% de indivíduos que contribuem para a maior pandemia mundial: sobrepeso/obesidade. Simplista demais para resolver esse problema contemporâneo complexo!

Ainda que por detrás das calorias do trigo, a presença do glúten, assim como, similarmente  outros alimentos tais como frutose, gengibre etc etc, possam estar relacionados a  algo mais, como a  termogênese de alimentos, a inflamação aguda e crônica, a cautela em lidar com a ciência me indica que não posso ser movida pelas emoções! Aliás, a ciência….. a ciência como pode nos trair??!!! E ela mesma também virar tema de reportagem em mídia não científica!

Em vários “posts” anteriores sempre me manifesto contra a ditadura dos modismos e, em especial, contra a pergunta “isto engorda?.  Assusta-me a mídia que maliciosamente ou inteligentemente (por interesse de outrem) “força a barra” com perguntas que demandam respostas que não devem ser ditas. Por isso, frequentemente recuso entrevistas quando percebo o interesse sensacionalista ou a manipulação do tema.

Infelizmente, esta forma de abordagem não presta nenhum serviço à sociedade, pelo contrário causa o caos. E aí, lembro-me bem de que quando minha querida avó ainda era viva, quase todas as Segundas-feiras, invariavelmente, ligava-me com a fascinação similar à de uma criança que descobre a nova invenção, para me perguntar se eu já era cúmplice da novidade, com a frase: vistes ontem no “Fantástico” isto ou aquilo?

Minha vozinha era vivida, esperta e inteligente, mas o poder do tal “Fantástico” e da novidade sorrateira eram muito superiores à sua sabedoria leiga. Que dizer dos milhões que não são tão sagazes?? Por isso, temo essas armadilhas!

“A arte de comer bem”! Cada vez mais certeza tenho que é arte sim. Desde os primórdios da civilização humana, comer tem ultrapassado o simples ato de alimentar, é compartilhar emoções.  Isso não tem preço, esquecem-se aqueles que vislumbram calorias, pois a descoberta do fogo, segundo alguns antropólogos, é o “x” que nos diferencia dos animais, e assim, acabamos por evoluir com um cérebro maior e um intestino menor (7). Por outro lado, indubitavelmente, está super valorizada e ao mesmo tempo tão banalizada! A César que é de César, diria! Que tal um pouco mais de atividade física, em vez de esperar por Godot?

 

  1. Santos RG, Quirino IE, Viana ML, Generoso SV, Nicoli JR, Martins FS, et al. Effects of nitric oxide synthase inhibition on glutamine action in a bacterial translocation model. Br J Nutr. 2014;111(1):93-100.
  2. Quirino IE, Cardoso VN, Santos R, Evangelista WP, Arantes RM, Fiúza JA, et al. The role of L-arginine and inducible nitric oxide synthase in intestinal permeability and bacterial translocation. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2013;37(3):392-400.
  3. Viana ML, Santos RG, Generoso SV, Arantes RM, Correia MI, Cardoso VN. Pretreatment with arginine preserves intestinal barrier integrity and reduces bacterial translocation in mice. Nutrition. 2010;26(2):218-23.
  4. Generoso SV, Viana M, Santos R, Martins FS, Machado JA, Arantes RM, et al. Saccharomyces cerevisiae strain UFMG 905 protects against bacterial translocation, preserves gut barrier integrity and stimulates the immune system in a murine intestinal obstruction model. Arch Microbiol. 2010;192(6):477-84.
  5. dos Santos R, Viana ML, Generoso SV, Arantes RE, Davisson Correia MI, Cardoso VN. Glutamine supplementation decreases intestinal permeability and preserves gut mucosa integrity in an experimental mouse model. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2010;34(4):408-13.
  6. Batista MA, Nicoli JR, Martins FoS, Machado JA, Arantes RM, Quirino IE, et al. Pretreatment with citrulline improves gut barrier after intestinal obstruction in mice. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2012;36(1):69-76.
  7. Armelagos GJ. Brain evolution, the determinates of food choice, and the omnivore’s dilemma. Crit Rev Food Sci Nutr. 2014;54(10):1330-41.

 

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Cenas do cotidiano, de novo….

September 21st, 2014 por

Cheguei à dura e triste conclusão que moro num país em que todo mundo anda a mentir! Os argumentos em prol desta afirmativa são vários e, vou discuti-los a seguir, com enorme pesar. Nas minhas andanças por este gigante que[…]
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Cenas de um cotidiano!

September 16th, 2014 por

Paciente – O doutor pediu exames do meu coração para eu poder ser operado da próstata. Eu – E então, sr. “X” já fez o exame? Paciente – Ah sim, já fiz! Eu – E o que o médico disse[…]
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